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Saúde do homem, urologia e performance

Saúde masculina preventiva: o que todo homem deveria saber (e poucos sabem)

Saúde masculina preventiva: o que todo homem deveria saber (e poucos sabem)

A saúde masculina preventiva ainda é um tema que enfrenta resistência cultural no Brasil. Enquanto campanhas anuais tentam sensibilizar os homens para o autocuidado, os dados continuam alarmantes: eles vivem menos, adoecem mais e consultam menos do que as mulheres — em grande parte porque acreditam que médico é para quando a dor já não dá para aguentar.

De acordo com as Taxas de Mortalidade 2024 do IBGE, a expectativa de vida ao nascer para os homens brasileiros é de 73,3 anos, contra 79,9 anos para as mulheres — uma diferença de mais de seis anos. Essa lacuna não é genética nem inevitável. Ela é, em grande parte, comportamental.

Em 2023, a população masculina recebeu apenas um quarto de todos os atendimentos individuais na Atenção Primária à Saúde brasileira, segundo dados do Sistema de Informações em Saúde para a Atenção Básica. Esse número revela o tamanho do problema: não é falta de serviço de saúde disponível — é falta de acesso voluntário, informação e cultura do autocuidado.

Este artigo é um guia prático sobre saúde masculina preventiva: por que ela importa, quais exames são recomendados em cada faixa etária e como o urologista pode ser um aliado fundamental nesse cuidado ao longo da vida.

Por que os homens vivem menos — e o que está por trás desse dado

A diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres não se explica apenas pela biologia. A raiz do problema está em um padrão de comportamento que se perpetua gerações após gerações: a ideia cultural de que cuidar da saúde é fraqueza, que sintomas são superáveis com força de vontade e que médico é recurso para situações extremas.

Dados do Centro de Referência em Saúde do Homem de São Paulo indicam que cerca de 70% das pessoas do sexo masculino procuram atendimento médico a partir de orientações de familiares e amigos — principalmente esposa e filhos. Essas visitas muitas vezes são tardias e podem identificar doenças já em estado avançado, dificultando o tratamento e levando a consequências mais graves.

De acordo com o Ministério da Saúde, seis em cada dez homens no Brasil só procuram um médico quando os sintomas já são insuportáveis. Esse comportamento tem consequências diretas: doenças que poderiam ser detectadas e tratadas precocemente, com excelente prognóstico, chegam ao diagnóstico em estágio avançado — quando as opções de tratamento são mais limitadas e os riscos, maiores.

As principais causas de morte entre os homens brasileiros seguem um padrão previsível:

  • Doenças cardiovasculares (infarto, AVC) — principal causa de mortalidade
  • Câncer (próstata, pulmão, cólon, testículo)
  • Causas externas (acidentes, violência)
  • Diabetes e suas complicações
  • Doenças respiratórias crônicas

O ponto em comum entre as doenças cardiovasculares, o diabetes e os cânceres mais comuns? Todas elas têm detecção precoce possível — e todas respondem muito melhor ao tratamento quando diagnosticadas nos estágios iniciais.

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH)

O Brasil é o único país da América Latina com uma política de saúde específica para a população masculina: a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), do Ministério da Saúde. Lançada em 2009 e revisada ao longo dos anos, a PNAISH tem como objetivo promover a melhoria das condições de saúde dos homens brasileiros, com foco na faixa etária de 20 a 59 anos.

Na Atenção Primária à Saúde, entre 2022 e 2024, as condições de saúde mais frequentemente acompanhadas entre os homens foram a hipertensão arterial (47,06%), o diabetes (20,9%), demandas relacionadas à saúde mental (11,16%), reabilitação (6,21%) e saúde sexual e reprodutiva (3,96%).

Esses números mostram que, quando o homem chega ao serviço de saúde, geralmente já há uma doença crônica instalada. A prevenção — que deveria ocorrer muito antes — ainda é o ponto mais frágil da equação.

Infográfico com os exames preventivos para saúde masculina recomendados por faixa etária

Exames preventivos para homens: o que fazer em cada fase da vida

A saúde masculina preventiva não segue um protocolo único. As recomendações variam conforme a faixa etária, o histórico familiar e os fatores de risco individuais. O quadro abaixo apresenta uma referência geral — sempre individualizada pelo médico responsável:

ExameA partir de quandoObservações
Pressão arterialDesde os 18 anosAnualmente ou conforme orientação médica
Glicemia em jejumDesde os 18 anos (risco) ou 40 anosRastreamento de diabetes e pré-diabetes
Perfil lipídico (colesterol)Desde os 20 anosMais frequente com fatores de risco
Exame de urinaEm consultas de rotinaDetecta infecções, alterações renais
PSA e avaliação prostáticaA partir dos 50 anosA partir dos 45 anos se histórico familiar ou homens negros
Autoexame testicularA partir dos 15 anosIdentificar nódulos ou alterações suspeitas
Ultrassonografia abdominalConforme indicação médicaAvaliação de rins, próstata e vias urinárias

Dos 18 aos 39 anos: a base está sendo construída agora

Muitos homens jovens acreditam que, por não apresentarem sintomas, estão saudáveis. Mas doenças como hipertensão arterial e diabetes podem se desenvolver silenciosamente nessa fase. Além disso, é nessa faixa etária que ocorre o pico de incidência do câncer de testículo — o tumor maligno mais comum em homens entre 15 e 35 anos.

Nessa fase, a consulta preventiva com urologista é importante para: avaliar a saúde do trato urinário, orientar sobre o reconhecimento de alterações testiculares, identificar fatores de risco precoces e abordar saúde sexual e reprodutiva.

Dos 40 aos 49 anos: o ponto de inflexão

Os 40 anos marcam uma virada no perfil de risco masculino. A pressão arterial, o colesterol e a glicemia podem começar a sair dos parâmetros ideais — muitas vezes sem sintomas perceptíveis. A testosterona inicia uma queda gradual e doenças como a hiperplasia benigna da próstata começam a surgir.

Nessa fase, o check-up anual deixa de ser opcional e passa a ser estratégico.

A partir dos 50 anos: próstata, coração e metabolismo em foco

A Sociedade Brasileira de Urologia defende a realização de exames periódicos para detecção precoce do câncer de próstata, individualizados após ampla discussão de riscos e benefícios, em decisão compartilhada com o paciente. Os homens a partir dos 50 anos e mesmo sem sintomas devem procurar um profissional especializado para avaliação.

Para pacientes com histórico familiar do tumor ou homens negros, que têm maior risco de desenvolver a doença, esse acompanhamento deve ser iniciado aos 45 anos.

O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum entre os homens no Brasil. O INCA estima 71.730 novos casos para cada ano do triênio 2023–2025, o que representa cerca de 196 diagnósticos diários. Quando identificado precocemente, o câncer de próstata apresenta índices de controle da doença entre 90% e 98%.

Urologista realizando check-up preventivo em paciente masculino como parte da saúde masculina preventiva

O papel do urologista na saúde masculina preventiva

Muitos homens associam o urologista apenas ao tratamento de doenças — pedra nos rins, infecção urinária, problemas na próstata. Mas a urologia tem um papel central e crescente na saúde masculina preventiva, sendo o especialista de referência para o cuidado integral do sistema urinário e genital masculino ao longo de toda a vida.

Entre os temas que o urologista aborda nas consultas preventivas estão:

  • Saúde da próstata: avaliação de sintomas, rastreamento orientado e individualizado do câncer de próstata, hiperplasia benigna
  • Saúde testicular: orientação sobre autoexame, diagnóstico de varicocele, hidrocele e tumores
  • Saúde sexual: avaliação da função erétil, testosterona, libido e saúde reprodutiva
  • Trato urinário: investigação de infecções, cálculos renais, alterações da micção
  • Prevenção de ISTs: orientação e rastreamento de infecções sexualmente transmissíveis

A consulta com o urologista não precisa esperar o surgimento de um sintoma grave. Uma avaliação periódica — especialmente a partir dos 40 anos — permite identificar alterações em fase inicial, quando o manejo é mais simples e eficaz.

Hábitos que fazem diferença real na saúde masculina

Além dos exames, os hábitos do cotidiano têm impacto direto e comprovado na saúde dos homens. O Ministério da Saúde e as principais sociedades médicas destacam como pilares da prevenção:

Alimentação equilibrada Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas, açúcar e excesso de sódio protege o coração, os rins e favorece o controle do peso — que está diretamente ligado ao risco de diabetes, hipertensão e alguns tipos de câncer.

Atividade física regular Trinta minutos de atividade física moderada na maioria dos dias da semana reduzem o risco cardiovascular, melhoram o metabolismo, contribuem para o controle da testosterona e têm impacto positivo na saúde mental.

Controle do peso corporal O excesso de peso aumenta o risco de hipertensão, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, apneia do sono e alguns tipos de câncer — todos condições de alta prevalência na população masculina.

Cessação do tabagismo O tabaco é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, câncer de pulmão, bexiga e rim. Não existe nível seguro de consumo.

Uso responsável de álcool O consumo excessivo de álcool aumenta o risco de doenças do fígado, câncer, hipertensão e compromete a saúde mental e sexual.

Saúde mental Homens têm menor probabilidade de buscar ajuda para questões emocionais e psicológicas — e apresentam taxas mais altas de suicídio. Cuidar da saúde mental é parte indissociável da saúde masculina preventiva.

Homem praticando atividade física como parte de rotina de saúde masculina preventiva

Conclusão

A saúde masculina preventiva não é um tema exclusivo de campanhas de novembro ou abril. É uma responsabilidade contínua, que começa na adolescência e segue ao longo de toda a vida. Homens que cuidam da saúde de forma regular vivem mais, com mais qualidade de vida — e evitam que doenças tratáveis se tornem emergências.

Se você é homem e está lendo este artigo, considere este o momento de agendar uma consulta com um urologista — independentemente de ter algum sintoma. O check-up preventivo é o investimento mais eficiente que existe em saúde masculina.


FAQ – PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE SAÚDE PREVENTIVA MASCULINA

A partir de que idade o homem deve começar a fazer check-up preventivo? 

O ideal é que o acompanhamento médico comece ainda na adolescência, com o urologista orientando sobre o autoexame testicular e saúde sexual. Na vida adulta, o check-up anual se torna cada vez mais importante — especialmente a partir dos 40 anos, quando aumentam os riscos de hipertensão, diabetes, alterações na próstata e doenças cardiovasculares.

Quando devo ir ao urologista pela primeira vez? 

Não existe uma idade mínima obrigatória. O ideal é que o urologista seja consultado sempre que houver qualquer dúvida sobre saúde urinária, sexual ou reprodutiva — e, preventivamente, a partir dos 40 anos para avaliação da próstata e rastreamento individualizado. Homens com histórico familiar de câncer de próstata devem antecipar essa avaliação para os 45 anos.

O exame de PSA é obrigatório para todos os homens? 

Não. O Ministério da Saúde e a SBU recomendam que a decisão sobre a realização do PSA seja individualizada, discutida com o médico após análise dos riscos e benefícios de cada paciente. A conversa com o urologista a partir dos 50 anos — ou 45 anos para grupos de maior risco — é o ponto de partida correto.

Homens jovens também precisam de acompanhamento urológico? 

Sim. O câncer de testículo é o tumor maligno mais frequente em homens entre 15 e 35 anos, e a disfunção erétil tem sido cada vez mais relatada em homens jovens. O urologista também orienta sobre saúde sexual, reprodutiva e pode identificar condições como varicocele que impactam a fertilidade.

Por que os homens vivem menos do que as mulheres no Brasil? 

A diferença de expectativa de vida — de mais de seis anos, segundo o IBGE — não é predominantemente biológica. Ela está associada ao menor acesso voluntário aos serviços de saúde, ao diagnóstico tardio de doenças crônicas, à maior exposição a fatores de risco como tabagismo e álcool, e a padrões culturais que desincentivam o autocuidado masculino.

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Sobre o Dr. Henrique Rodrigues Scherer Coelho
Dr. Henrique é natural de Campo Grande, MS, e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Trajetória:

● Graduado em Medicina (UFMS/Dourados, 2006);
● Residência em Cirurgia Geral (Santa Casa – CG, até 2010);
● Residência em Urologia (UFMS, até 2013);
● Mestrado em Saúde e Desenvolvimento (UFMS, 2016);
● Especialização em Cirurgia Urológica Minimamente Invasiva (Hospital Sírio-Libanês, 2017);
Doutorado em Saúde e Desenvolvimento (UFMS, defendido em 2022);
Pesquisa premiada sobre células-tronco em bexiga hipocontrátil (2023, Santiago-Chile).